Foto por Craig Chitima.

Tais peripécias fogosas
estranhas rugosas
estas marcas de águas em mim
e nas paredes
voltando-me e fazendo-me
sentir

Tais peripécias rugosas
essas calorosas danças, essas
marcas, essa
guinada para frente

A vida empurra-me, empurra-me e empurra-me
Não pense”. Vá
a vida é pouco

E tais peripécias caóticas
alegres e felizes
eu gostaria de chorar
mas não posso, pois tudo vai
e me leva e me
derruba e me
destrói.

Tais peripécias análogas
Gostaria de ter tempo
de processar a dor
mas a dor se processa nesse movimento
de vai e vem,

de viver.

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Candido Portinari, “Meninos Brincando”, óleo sobre tela. 1955.

Curiosos os caminhos da vida
Revertem-me em um sopro
Desferem-me uma ferida:
chutam-me, socam

Caio no chão, revertido

Choro, grito, cuspo

E ainda assim, estou aqui
desejando mais.

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Incontornável volúpia irrevogável
Tais céus límpidos e vorazes
os buracos de meu peito e das ruas
— às inescapáveis marcas do destino

Ananké, ananké — grita a tragédia
Marcas indeléveis da vontade
nas rangeduras de meu peito e nas ruas
Marcando esta vontade nítida
voraz
ㅤㅤㅤde errar.

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Edvard Munch: Melancholy. 1894.

tua figura é o exato concreto da solidão
é o exato figuro da interrogação

O que pensas?” poderiam me perguntar
e os talvez brotariam
como a única certeza
minha
ㅤㅤㅤ(da tua figura
minha
sina).

tua vontade feita
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤem fala presa
ㅤㅤㅤsua ocultação feita
em inocência
aparente.

É cruel. Cruel.

Resguardo, mesmo, então
em mim
a crueldade
ㅤㅤㅤ
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤse em dúvida permaneço
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤdas minhas certezas atiro, todas
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤem um bueiro
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤde minha memória
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤ

(Perdão…)

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Hope — George Frederic Watts.

Se eu pudesse escolher o que odiar
eu escolheria meus olhos, a memória e o sentir

Odiaria até findá-los, destruí-los
esmigalhá-los

Esqueceria de tuas materialidades, tuas concretudes
tuas durezas

Se eu pudesse escolher o que odiar
odiaria meu coração, o peso e a marca
do que desagrada, do que machuca

Escolheria, mesmo, findar com tudo:
o toque, o encontro
a escolha

Acabaria então, logo
com tudo

só assim, o ódio

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desenvolvo-te alguma ação
alimentado desse desejo inócuo
por mais
entre nós dois

complexa luxúria
teus desejos também
como de todos

mais além
você dirá
assim para comigo
— óbvio.

dificuldade em tal empreitada
eu sei, amor. Eu sei,

de tua vontade absorta

ㅤㅤㅤagora,
afastado
deslocado
como tu me mantém
recuado
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤesta ocultação
o teu desejo
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤesta enganação
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤeste meu desejo
de mal-estar
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤpor toda dor
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤpela minha dor
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤque me explode.

Eu gostaria de mais
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤpara
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤpor
ㅤㅤㅤㅤemㅤㅤㅤㅤ
Mas…
não me permite
ㅤㅤtu.ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤnão me permite
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤnão me quer
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤnesse sentido.

(Haverá alguém assim
ㅤㅤㅤㅤㅤpara você

ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤ?)

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Foto por Seba Bertoni. Disponível em Unsplash.

Sentado a esquina da rua
Inviabilizado pelo teor público
de um choro que poderia ser visto
à luz da lua.

Controlo minimamente então
esse choro.

Fumo um cigarro,
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤfinjo
que nada me ocupa nesse momento.

Teor público de controle
pela falta da mesa de um bar
e do som ao vivo
para disfarçar
a minha tristeza.

Tal como este poema
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤoculto
Feito para me ocupar
Apenas das palavras

e não da dor.

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Gabriel Guimarães

Gabriel Guimarães

Se a vida é um processo de reinventar-se, planejo reinventar-me, inventando como viver.